A ironia do texto anterior
A versão de 2019 deste artigo ensinava a escrever bem e começava assim: "visando postar textos que possam dizer mais a respeito sobre algum tema, e buscando agregar conhecimento para as pessoas que acessam o mesmo". Há uma redundância ("a respeito sobre") e o uso burocrático de "o mesmo" como pronome — justamente o vício que um texto sobre boa escrita deveria combater.
O conselho central também era circular. A seção chamada "Boa escrita" dizia que "é imprescindível que a escrita esteja perfeita, legível e coerente" e terminava com "treine bastante a escrita". Traduzindo: para escrever bem, escreva bem. Isso não é instrução — é o formato de uma instrução.
Este texto troca isso por operações que dá para executar hoje, no texto que você está escrevendo. E usa, como material de exemplo, os próprios erros da versão anterior.
Onde este texto entra
Escrever para o blog e escrever para as páginas do site são trabalhos diferentes, com regras diferentes. Uma página de serviço precisa converter quem já decidiu; um post precisa ser encontrado e responder a quem ainda está entendendo.
Se o que você precisa é escrever as páginas fixas — home, sobre, serviços —, o processo está em como criar o conteúdo ideal para o meu site. Se a dúvida é sobre o que escrever, a resposta está em quais conteúdos não devem faltar no blog.
Aqui o assunto é a peça em si: como o texto do post é construído, do primeiro parágrafo à revisão.
Texto de blog não é lido — é varrido
A diferença mais importante entre escrever para blog e escrever para qualquer outro lugar é o comportamento de quem chega. A pessoa vem de uma busca, com uma pergunta específica na cabeça, e faz uma varredura de poucos segundos antes de decidir se lê.
Nessa varredura ela não lê frases: percorre o título, os subtítulos em negrito, uma ou outra palavra destacada e o começo do primeiro parágrafo. Está procurando um sinal de que a resposta está ali. Se não encontra, volta para os resultados de busca — e não há segunda chance.
Isso reordena tudo o que se aprende sobre escrita. O texto precisa funcionar em duas camadas: uma para quem varre, feita de título, subtítulos e primeiras frases; e outra para quem decidiu ler, feita do texto corrido. Escrever bem para blog é, antes de qualquer coisa, fazer as duas camadas funcionarem.
O primeiro parágrafo não é introdução
Aberturas como "muitas pessoas, atualmente, procuram por..." são o começo mais comum e o pior possível — e a versão anterior deste texto começava exatamente assim.
O motivo é simples: quem chegou de uma busca já sabe do que se trata. Foi essa pessoa que digitou o assunto. Contextualizar o que ela já sabe adia a resposta e gasta os únicos segundos de atenção que você tinha.
O primeiro parágrafo tem uma função só: confirmar que ela está no lugar certo. Uma ou duas frases dizendo o que o texto responde e para quem ele serve. Um teste rápido: se o seu primeiro parágrafo pudesse abrir qualquer outro texto do mesmo assunto, ele não está dizendo nada — apague e comece pela informação.
A regra da resposta antecipada
A escola ensina a construir: apresentar o tema, desenvolver os argumentos, concluir. Essa ordem funciona em uma prova, onde o leitor é obrigado a chegar ao fim. Na internet, ninguém é obrigado a nada.
A ordem que funciona é a inversa: a resposta principal vai nos primeiros parágrafos. Se o título pergunta quanto tempo leva algo, o número aparece logo. Se pergunta se vale a pena, a posição aparece logo — inclusive quando é "depende", contanto que venha seguida do critério.
Isso não encurta o texto nem torna o resto dispensável. O que vem depois é o que dá sustentação: por que é assim, em que casos muda, o que fazer na prática, quais as exceções. A diferença é que agora a pessoa está lendo por interesse, e não em busca de algo que você prometeu e ainda não entregou.
Subtítulos são o índice que o leitor lê antes
Como a varredura passa pelos subtítulos, eles cumprem duas funções ao mesmo tempo: organizam o texto e servem de resumo para quem ainda não leu nada.
Daí a regra prática: os subtítulos precisam fazer sentido lidos em sequência, sozinhos. Se alguém ler só eles, deve entender o esqueleto do argumento. Subtítulos vagos — "Considerações", "Sobre o tema", "Dicas" — não informam nada e desperdiçam a parte mais visível da página.
Vale trocar cada um por uma frase que diga o que está ali: "a resposta vai no começo", "os cinco vícios mais comuns", "o que a palavra-chave não faz". É mais longo, e é exatamente por isso que funciona.
Uma ideia por parágrafo
Parágrafo longo com três ideias dentro é o que mais faz gente abandonar um texto na metade. Não porque a pessoa não entenda — porque cansa.
A regra é uma ideia por parágrafo, e o parágrafo termina quando a ideia termina. Na prática, isso costuma dar de duas a cinco linhas na tela. Quando um parágrafo passa de seis linhas, quase sempre há duas ideias ali dentro que podem virar dois parágrafos.
Vale o mesmo para a frase: mais de duas vírgulas costuma indicar que ela precisa ser quebrada. Não é regra gramatical, é economia de atenção — quem lê no celular perde o fio de uma frase longa e precisa voltar ao começo.
Troque adjetivo por prova
Esta é a operação que mais melhora um texto corporativo, e é mecânica: procure os adjetivos elogiosos e substitua cada um por um fato.
"Atendimento de excelente qualidade" vira "respondemos em até quatro horas úteis". "Solução altamente eficiente" vira o número, o prazo ou a comparação. "Profissionais altamente qualificados" vira a certificação ou o tempo de experiência.
A diferença não é estilística. Adjetivo pede que acreditem em você; dado deixa a pessoa concluir sozinha — e conclusão própria convence muito mais do que elogio alheio. Como bônus, o texto encurta, porque os adjetivos elogiosos quase sempre vêm acompanhados de intensificadores vazios: "extremamente necessário", "perfeitamente definido", "totalmente essencial".
Correção: o que a palavra-chave faz
A versão anterior recomendava "investir no mecanismo de SEO" e afirmava que, feito isso, "seus posts podem ser os primeiros a serem encontrados". Duas imprecisões em uma frase.
SEO não é um mecanismo em que se investe: é o conjunto de práticas que tornam uma página encontrável. E escolher uma palavra-chave não coloca ninguém em primeiro lugar — quem decide a posição é a qualidade da resposta comparada às demais páginas que disputam a mesma busca.
O que a escolha da palavra faz de útil é anterior e mais valioso: garante que você está escrevendo sobre algo que as pessoas realmente procuram, e nas palavras que elas usariam — não no jargão interno da empresa. Um texto por dúvida, com o assunto no título de forma natural. Repetir a expressão artificialmente ao longo do texto atrapalha a leitura e não ajuda em nada.
Escreva para quem não conhece o jargão
Quem escreve sobre a própria área tem um ponto cego: as palavras que usa todo dia parecem óbvias, e não são. O leitor que chega pelo blog é, quase por definição, quem ainda não domina o assunto — se dominasse, não estaria procurando.
A correção é simples e não empobrece o texto: use o termo técnico, mas explique-o na primeira aparição, em meia frase. "Autoridade tópica — a cobertura de um assunto por várias páginas do mesmo site — funciona quando..." Assim o especialista continua confortável e o iniciante não trava.
O que não funciona é o oposto: substituir tudo por linguagem vaga para "facilitar". Texto sem termo nenhum vira genérico, e genérico não responde a pergunta de ninguém.
Os 5 vícios mais comuns
Cinco construções aparecem em quase todo texto corporativo e podem ser eliminadas sem perda nenhuma de sentido:
- "O mesmo" como pronome. "As pessoas que acessam o mesmo" — troque por "que acessam o blog" ou simplesmente "que acessam".
- "Através de" onde cabe "por" ou "com". "Através de nossa equipe" vira "pela nossa equipe". "Através de" serve para atravessar algo.
- "Realizar" no lugar do verbo real. "Realizar a captação de clientes" é "captar clientes". O verbo genérico esconde a ação.
- Intensificadores vazios. "Extremamente necessário", "totalmente essencial", "perfeitamente definido". Se é necessário, é necessário.
- Redundância de referência. "A respeito sobre", "mas porém", "há dois anos atrás". Uma das duas palavras sempre sobra.
Nenhum deles é erro grave de gramática. São ruído — e ruído, somado ao longo de duas mil palavras, é o que faz um texto parecer difícil sem ser.
As 6 operações de revisão
"Treine bastante a escrita" não é executável. Isto é — seis operações, na ordem, sobre um texto já escrito:
- Corte 10% do total. Sem escolher o que cortar antes: a restrição é que obriga a encontrar o que sobrava.
- Leia em voz alta. Onde faltar fôlego, a frase é longa demais. Onde a leitura tropeçar, a ordem das palavras está errada.
- Procure os cinco vícios da seção anterior e elimine um a um.
- Quebre frases com mais de duas vírgulas. Quase sempre viram duas frases melhores.
- Troque cada adjetivo elogioso por um fato. Se não houver fato disponível, apague o adjetivo.
- Leia só os subtítulos. Se eles não contarem a história sozinhos, reescreva-os.
Uma sétima, quando houver tempo: deixe o texto descansar um dia antes da revisão. A distância faz enxergar o que a proximidade esconde — e é a razão pela qual revisar logo depois de escrever quase nunca funciona.
Tamanho, conclusão e o que fazer quando trava
Tamanho. Não existe número mágico de palavras, e perseguir uma meta piora o texto: enche-se de repetição para bater a contagem. O tamanho certo é aquele em que a pergunta foi respondida por inteiro, incluindo as dúvidas que a própria resposta levanta. Assuntos complexos pedem textos longos porque têm mais a dizer — não o contrário.
Conclusão. A maioria repete o que já foi dito, e resumo é exatamente o que faz alguém fechar a página. Se a resposta veio no começo, a conclusão útil aponta o próximo passo: o que fazer com a informação, o que decidir primeiro, ou qual a dúvida seguinte e onde ela está respondida.
Quando trava. Escreva a resposta completa em uma única frase, como se estivesse explicando para alguém por mensagem. Depois expanda cada parte dessa frase em um bloco. A página em branco quase nunca é falta de conhecimento — é tentativa de começar pela primeira frase bonita em vez de começar pela informação.
Perguntas frequentes
O que fazer para escrever bem para um blog?
Comece reconhecendo que texto de blog não é lido de ponta a ponta: é varrido em segundos por quem chegou de uma busca com uma pergunta específica. A partir daí, três decisões resolvem a maior parte — responder à pergunta do título logo no começo, escrever subtítulos que façam sentido lidos sozinhos e revisar cortando, em vez de acrescentar.
Como começar um post de blog?
Não com introdução. Quem chegou de uma busca já sabe do que se trata, e abrir com "muitas pessoas atualmente procuram por..." só adia a resposta. O primeiro parágrafo tem uma função só: confirmar que a pessoa está no lugar certo, dizendo em uma ou duas frases o que o texto responde e a quem ele serve.
Onde colocar a resposta principal do texto?
No começo, nos primeiros parágrafos. A escola ensina a construir argumentação e concluir no fim, e isso funciona na prova, não na internet. Quem não encontra sinal da resposta logo volta para os resultados de busca. O restante do texto existe para fundamentar, detalhar e tratar as exceções — não para revelar o desfecho.
Definir palavras-chave garante o primeiro lugar no Google?
Não, e prometer isso é impreciso. Escolher a palavra certa serve para escrever sobre o que as pessoas de fato procuram e usar as palavras que elas usariam. Isso ajuda a ser encontrado, mas não determina posição — quem decide é a qualidade da resposta comparada às outras páginas que disputam a mesma busca.
Qual o tamanho ideal de um post de blog?
Não existe número mágico, e perseguir uma contagem de palavras costuma piorar o texto — enche-se de repetição para bater a meta. O tamanho certo é aquele em que a pergunta foi respondida por inteiro, incluindo as dúvidas que surgem da própria resposta. Se um assunto se resolve em quatrocentas palavras, o texto tem quatrocentas palavras.
Como deixar o texto mais fácil de ler?
Uma ideia por parágrafo, parágrafos curtos, frases com no máximo duas vírgulas e subtítulos a cada bloco. Também ajuda substituir adjetivo por prova: em vez de "serviço de excelente qualidade", diga o prazo, o número ou o exemplo. Adjetivo pede que acreditem em você; dado deixa a pessoa concluir sozinha.
Como revisar um texto sozinho?
Com operações concretas, não com boa vontade. Corte dez por cento do total; leia em voz alta e reescreva onde faltar fôlego; elimine "o mesmo", "através de" e "realizar"; quebre frases com mais de duas vírgulas; troque cada adjetivo elogioso por um fato; e confira se cada subtítulo faz sentido lido sozinho.
Preciso escrever bem ou basta conhecer o assunto?
Conhecer o assunto é o que não pode faltar. Um redator transforma explicação em texto legível, mas ninguém transforma texto em conhecimento que não existe. Quem domina o tema e escreve com clareza mediana produz algo mais útil do que quem escreve muito bem sobre o que não conhece — e a clareza se aprende com revisão.
Como escrever a conclusão de um post?
Não repetindo o que já foi dito. Se a resposta veio no começo e o texto a desenvolveu, resumir tudo de novo faz o leitor abandonar. A conclusão útil aponta o próximo passo: o que fazer com a informação, o que decidir primeiro, ou onde continuar lendo se a dúvida seguinte já foi respondida em outro texto.